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20/09/2016 - Na verdade somos o que lemos.

Sabe-se que o passado histórico político brasileiro não foi favorável ao fortalecimento de uma leitura significativa, sob o ponto de vista de nossa herança cultural e de nossa originalidade. Sem fazer disso um exercício pedagógico, lembremo-nos de que até o final do século XIX a nossa literatura esteve marcada, quase sempre, por valores que não nos representavam social e historicamente. É somente no século XX que iremos encontrar razões muito claras para a expressão de nossa realidade, de modo a configurar um processo de construção com efeito sobre a psicologia individual e, ao mesmo tempo, sobre a própria organização social.
A partir dos agitados anos 1930 é que se acha uma razão brasileira para a literatura feita aqui. Trazendo para a realidade os problemas e natureza social, especialmente do Nordeste, os autores nacionais provocam uma ruptura com o estabelecido, dando um novo rumo para o modo de ver o Brasil literário.
Nos anos 1950, consolidamos alguns dos valores realçados pela geração anterior, o caminho que se abre para a literatura brasileira é múltiplo: de um lado, a expressividade e a força da poesia de Carlos Drummond de Andrade, definindo-se com o poético condicionado à temporalidade e ao espaço, em um lirismo imbuído de ironia e protesto, de outro, o aparecimento de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, provocando uma revolução estilística que até hoje não deixou de surpreender.
É dentro dessa linha de raciocínio que se pode pensar a razão por que, modernamente, a literatura brasileira se assume como uma questão de extrema importância não só para o leitor convencional, mas, principalmente, para o leitor jovem. É que, de modo geral, a literatura se organiza como um instrumento de conservação e de divulgação de certos sistemas simbólicos de palavras. O problema, por isso, é a tendência de aceitar certas heranças culturais que se mostram de forma absolutizada.
Cultura brasileira: Se é compreensível que, no Brasil, temos certa unidade cultural, também não é menos verdadeiro que não sabemos muito bem o que fazer com ela. Daí que a busca de uma expressão dessa cultura se choca, muitas vezes, com o sentimento de colonialismo intelectual, bem como o deslumbramento por tudo que é estrangeiro, confundindo, quase sempre, o que deve ser muito claro: como não podemos escapar do mecanismo de influência externa, acabamos por adaptar as conquistas ao modo de ser nacional.
O resultado é conhecido: não só a proliferação de livros que, rigorosamente, não têm a ver conosco (os conhecidos best-sellers),mas a insistência com a temáticas herdadas de fora, cujos os livros – porque têm pouco a dizer de nós – acabam não sendo lidos. A essa situação (que não é exclusivamente brasileira), soma-se o contínuo empobrecimento cultural a que nos expõe a mídia televisiva, e é possível ajuizar sobre a capacidade de leitura do jovem, especialmente. Posto ante experiências repetitivas e vazias, quando não absolutamente, o hipotético leitor não só tem que contar, mas, principalmente não tem o que pensar. Vista a questão desse modo, não basta uma literatura autêntica e expressiva ( e sabemos que a produção brasileira o é ). Pode-se, no entanto, afirmar que, entre os autores atuais, se encontram textos em cuja leitura ainda há a possibilidade de resistência, isto é, aquele espaço de onde brota o desejo e uma experiência se legitima.
Este lugar de redenção ( que é a obra de arte ) e que, entre todas, a literatura permite como nenhuma outra: não só a reinvenção do mundo, mas a construção de sentido, talvez a única forma verdadeira de questionamento da realidade, porque a leitura lida com a linguagem e seu fascinante poder e apelo.
O silencioso leitor que se depara com o drama humano de Riobaldo na clássica passagem da morte de Diadorim, em Grande Sertão: Veredas, ou o divertido adolescente que ri de histórias contadas por Luiz Fernando Verissimo, em Comédias da Vida Privada, têm a seu modo experiências fundamentais: enquanto ao primeiro, na sua condição de sujeito, a arte possibilita a experiência da catarse, movimento que se expressa fora do livro, ao jovem leitor sucede a possibilidade de enriquecimento de sua experiência subjetiva, já que as histórias narradas pelo escritor apontam para zonas de interdição da cultura. Em ambos os casos, um conhecimento que é possível compartilhar, porque ele se acha tanto na arte quanto na vida.


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